TRAGÉDIA DOS SEM TETOS DEIXA OS REIS NUS

O incêndio e desabamento do Edifício Wilton Paes de Almeida ocorrido no dia 1º de maio, na esquina da Av. Rio Branco com o Largo do Paissandu, bem no centro de São Paulo escancarou a catástrofe habitacional cotidiana que atinge perto de quatro milhões de pessoas na cidade mais rica do país.

No imóvel abandonado pelos poderes públicos há mais de 20 anos, moravam, aproximadamente, cento e cinquenta famílias. Mulheres, crianças, adolescentes, homens e idosos, por absoluta falta de opção, fizeram daquele espaço suas moradias.

Quem passava por ali, não tinha como não ver. Pessoas sem tetos se acomodavam na calçada, embaixo das marquises e ali dormiam. Moradores do Edifício saiam na porta, sentavam por ali, ficavam conversando, crianças chutavam bolas, outros reciclavam materiais recolhidos das ruas. Havia canos que despejavam esgoto na divisa com a Igreja da Rio Branco, outro cano estourado despejava água suja na outra esquina. De dentro da edificação exalava um cheiro forte. Era um cenário que ninguém tinha o direito de se omitir para resolver a situação ou condenar preconceituosamente aquelas famílias.

Ali estava uma pequena fotografia do Brasil. Brasil injusto, violento com seus trabalhadores. Aquelas pessoas já tinham seus direitos fundamentais e sagrados queimados pelas chamas da avareza, da gula das classes privilegiadas do Brasil. Sabemos que esta tragédia não será a última. Porquê o Brasil dirigido, comandado por crápulas, criminosos encastelados em todos os poros da sociedade está aprofundando a miséria social, não há empregos, salários aviltantes, políticas públicas desapareceram.

O poder público e a mídia predominante estão dominados por avarentos, preconceituosos e de adeptos da violência para atacar os sem tetos. Não há projeto de desenvolvimento do Brasil onde se inclua os trabalhadores nos processos produtivos e de atendimento de suas necessidades.

No dia da tragédia e até hoje (04/05/18) as famílias se acomodaram no pátio do Largo. Estão recebendo muita solidariedade de última hora. Para ali afluíram outros sem -tetos. Mas, andando pelo entorno, encontram-se corpos estendidos pelas calçadas. Alheios ao desastre e a todo “vucovuco” da região. Estão ali, na Av. Rio Branco, Rua Santa Efigênia, Av. São João, Av. Ipiranga, por ali, por todas as ruas. Em São Paulo, são perto de vinte e cinco mil pessoas em situação de rua, no Brasil chega a cem mil. Estão ali, ninguém os nota. O fogo direto que devorou seus direitos continua corroendo seus corpos enrolados em plásticos, papelão ou farrapos de cobertor, mas sem chamas e nem fumaça. Então não são notados. Não eram foco de ninguém. Mas, existem, estão ali.

Depois do ocorrido afluíram para o local, claro os bombeiros, que demoraram para iniciar o combate ao sinistro. Muitos equipamentos precários, sem escada de alcance. O que se fala é que demorou para agir. A mídia predominante com helicópteros, drones, equipes instaladas no local disseminando veneno contra os sem-tetos. Dizia a mídia predominante: Eram drogados, marginais, jogavam lixo no poço do elevador, cobravam aluguel. Falavam, em outras palavras, é preciso colocar a polícia em cima deles e desalojar todas as ocupações. Os sem-tetos são bandidos invasores. Tinham veneno de todo tipo para atacar os sem-tetos em geral e culpar as próprias vítimas de seu infortúnio. A FLM fica indignada com esse tipo de imprensa e podemos afirmar que a maioria dos bandidos mora em mansões e palácios da cidade.

Há um ditado que diz: “O mal não tem dono”, ou seja, a tragédia era culpa das próprias vítimas. Os donos do mal ficavam escondidos atrás da artilharia da mídia predominante. Mas, quem quer enxergar sabe que o mal tem dono. São aqueles que mantêm essa economia podre. Onde os trabalhadores trabalham até a morte e não ganham o suficiente para viver. Onde os privilegiados forjam Leis para obter vantagens como do auxílio-moradia do judiciário e do legislativo de R$ 4.378,00 mensais, entre outros absurdos. Esse desemprego criminoso, esses salários miseráveis, a falta de políticas públicas, a falta de moradia. A proteção descabida do judiciário e das forças de segurança dessas propriedades sem função social. Encobrir a causa do infortúnio dos sem-tetos não é atitude inteligente. Se não quiserem se envergonhar com novos sinistros adotem as propostas dos sem-tetos organizados.

Neste momento, podemos implementar emergencialmente:

  1. Atender em projetos habitacionais as famílias de ocupações que estão em situação de risco;
  2. Requisitar, conforme a Lei, Artigo 5º, inciso 25, da Constituição Federal e Artigo 228, parágrafo 3º, do Código Civil, os prédios abandonados, adequá-los rapidamente e atender as famílias. No caso das famílias do edifício incendiado, requisitar o espigão da Av. São João, 601. Ali tem 330 apartamentos abandonados por quase 20 anos. Disponibilizar terrenos abandonados para que as famílias façam suas casas de alvenaria, com assessorias de projetos habitacionais;
  3. Recursos: Que o lucro dos bancos e empresas seja taxado em 10% e estes recursos destinados à moradia. Ex: o Bradesco lucrou 5 bilhões no primeiro trimestre do ano. Em 12 meses deve lucrar 20 bilhões. Se pegar de todos os bancos haveria muitos recursos para solucionar essa vergonha nacional. E não pesaria nada para essas empresas. Utilizar o estoque de impostos de 500 bilhões de reais sonegados, FURTADOS, por ano. Que também é responsável pelo infortúnio dos sem-tetos. Coibir esta prática corriqueira dos privilegiados e milionários.
  4. Deixar de pagar o “Bolsa Moradia” de R$ 4.378,00 mensais para o Judiciário e do Legislativo e aplicar em moradia social. Para ser coerente os beneficiários dessa escandalosa “Bolsa” deveriam abrir mão espontaneamente. Esse privilégio também é responsável pela tragédia sofrida pelos sem-tetos. Em tempo: utilizar os 70 bilhões de reais de remessas de lucro enviados para o exterior. Em pouco tempo acabaria o drama habitacional dos sem-tetos. Nem haveria necessidade de sentenças violentas e forças armadas para encurralar os sem-tetos.

Finalmente, a FLM se coloca a disposição para trabalhar constantemente para a viabilização de projetos habitacionais para famílias sem-tetos. Daqui pra frente, tomando conhecimento de qualquer possibilidade que possa afetar as famílias sem-tetos, vamos nos colocar à disposição para resolver a situação.

FLM – Frente de Luta por Moradia

São Paulo, 04 de maio de 2018.

Contatos: flmbrasil@gmail.com / www.portalflm.com.br / Facebook: LutaMoradia Frente de Luta por Moradia

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